Canibais e Reis

Para quem, como eu, era leitor do excelente blogue português Canibais e Reis e não está conseguindo acessá-lo na última semana, tenho uma triste notícia: ele foi fechado.

Pois é, é uma perda enorme para a comunidade, havia uma quantidade incrível de informações reunidas ali. É triste, mas houveram seus motivos.

Deixo com vocês uma reprodução integral do último post do blogue, antes de ser retirado do ar.

Caro “Primitivo”, se estiver lendo isso, boa sorte na sua nova fase! Grok on!


Último artigo no encerramento deste blogue, o barco vai de saída, adeus ao cais de Alfama

Após ponderada e apurada reflexão, chego à conclusão que a minha participação nestes debates da nutrição e alimentação, que nada tem a haver com a minha área profissional, e que se traduziram em 2.8 anos e 1.668 artigos neste blogue, chega agora ao fim. Foi bom enquanto durou, e agradeço sinceramente a todos os amigos e colegas on-line que partilharam comigo o seu conhecimento, os seus artigos e até a sua amizade. Um trabalho tão intenso e prolongado, naturalmente, deixou em branco outras áreas da minha vida, que descurei já por demasiado tempo. As pessoas não me conhecem, mas faz parte da minha personalidade entregar-me por completo a todas as tarefas que realizo, por mais simples e efémeras que possam parecer. Acho que isso é uma enorme qualidade, mas igualmente um tremendo defeito. Entendo que chegou a hora de partir para outros projectos, que espero me tragam algum real benefício na minha vida, que a bem da verdade está algo desorientada. Na realidade, fruto de umas tantas desilusões acumuladas ao longo destes 40 anos, que completei há alguns meses, uma das quais ocorrida a 13 de Maio de 2000 e que me parece inultrapassável, e que me estão agora a pesar como chumbo, estou marcadamente desmotivado. Em virtude do vasto tempo despendido neste blogue, que naturalmente me deu muito gosto em fazer, e com o qual aprendi muitas coisas novas, releguei para segundo plano outras coisas importantes, da minha vida pessoal, o meu plano de treinos e também de leituras. É que só ler e escrever em blogues torna-se estupidificante, porque praticamente não deixa espaço para os livros, que sempre foram os meus companheiros de solidão e aos quais pretendo voltar. Acresce a isto que considero o trabalho aqui realizado altamente inútil e inglório, na prática sem qualquer retorno ou reconhecimento. Isto é notório e evidente, salvo raríssimas e elogiosas excepções, na quase completa ausência de comentários e/ou ligações de outras páginas para este blogue. E também pela desconsideração da maioria dos amigos mais próximos, muitos deles a quem, na perspectiva de ajudar, dei a conhecer este trabalho, mas que não tiveram a cordialidade de ter uma palavra de incentivo, sequer um mero comentário. Naturalmente isto é algo que nunca lhes disse, mas que nem por isso deixei de registar com o devido desapontamento. Aquele ditado “santos de casa não fazem milagres” encaixa aqui como uma luva, funcionou melhor que as leis de Murphy. Não é algo a que eu não estivesse já habituado, ou que me tenha realmente importado, e acho que isso ficou claro na tenacidade de ter aguentado este tempo todo. Com efeito, nas minhas anteriores “reencarnações”, nomeadamente no trabalho associativo-cultural intensivo que mantive por mais de 3 anos e que, a certa altura, também larguei completamente sem qualquer apego, modéstias à parte, acho que realizei coisas extraordinárias, mas que igualmente não tiveram qualquer reconhecimento ou gratidão. Trabalhos rotineiros e cansativos e que, porventura, até nos podem lançar para uma nova estaca zero, tais como os a que Sísifo foi condenado, não têm constituído para mim qualquer novidade, na última década até parecem ter sido a norma. Mas há limites, eles não matam mas moem progressivamente, até ao dia em que há que mudar. Naturalmente que agora é a hora de seguir em frente, de voltar-me para actividades que, espero, se venham a revelar mais gratificantes e produtivas. Como primeira medida, espero aproveitar estas férias de Agosto que se avizinham para me recompor e preparar-me para me reiniciar nas corridas populares, nas quais participei com regularidade e agrado nos 2 últimos anos, mas nas quais não apareço faz mais de 6 meses. E também para retornar ao ginásio, reiniciando o meu plano de treino de força que, para meu enorme desagrado, não consegui manter. Não pode ser, isto para mim é insustentável e a degradação da minha forma física está a tornar-se muito visível. O fim do trabalho neste blogue, pelo menos é esta a minha ilusão, vai me libertar tempo e cabeça para este novo início de vida que, espero, seja uma espécie de renascimento. Pelo menos, é bom ir mantendo as ilusões da vida. Na minha mente levo a certeza de que a ciência existe, que é profundamente válida e fascinante, apenas não tem na maioria dos seus investigadores pessoas com inteligência e criatividade, à altura da sua grandeza. Hoje não tenho qualquer dúvida de que os grandes cientistas no mundo, nestas áreas da alimentação e estilo de vida, são em quantidade ínfima, talvez uns 10 ou 20, certamente menos de 30 a nível mundial. Extraordinariamente, em Portugal temos uma dessas mentes brilhantes, um indivíduo ainda jovem, sem qualquer curso na área da nutrição, desconhecido no seu próprio país, que nunca apareceu em televisões ou revistas, mas que já publica do que de melhor a Pubmed tem visto. Apenas para exemplificar, o seu último artigo, do qual é o autor principal em parceria com outros notáveis investigadores internacionais, publicado no presente ano de 2011, teve mais de 43.000 leituras internacionais em escassos 5 meses. Da minha passagem episódica por esta área do conhecimento humano, guardarei com muito apreço um pequeno pormenor, algo que não cheguei a referir neste blogue. O facto do meu nome ter figurado nos agradecimentos desse artigo, o qual tive a honra de poder comentar em fase de revisão, sendo talvez este o único aspecto que me poderia fazer fraquejar na minha presente decisão, o medo de desagradar às poucas pessoas que realmente valorizaram este meu trabalho. Algo certamente de fazer inveja aos “especialistas” cá do nosso pequeno bairro à beira-mar plantado, e que não publicam nada até porque, provavelmente, nem sabem onde fica essa coisa da Pubmed. É que nesta área da nutrição humana, que é maravilhosa mas que está muito mal entregue, por mais paradoxal que isto possa parecer, os indivíduos com doutoramentos e cátedras são os que menos dominam a sua própria área. Da altivez da sua ignorância, presunção e burrice, só lhes faltam mesmo as respectivas orelhas. Isto deve ser completamente inédito, pois não acredito que em mais nenhuma área da ciência tal seja possível, todos os académicos mais graduados que conheci, e foram vários na área da engenharia, são incontestados génios nas suas áreas científicas. No mundo da nutrição é exactamente ao contrário, o rei vai nu mas, apesar de nada do que esses “especialistas” recomendam funcionar na prática, ainda ninguém se deu conta disso. Sempre fui uma pessoa de ciência, e pelo resto da minha vida procurarei aprender sempre mais e aplicá-la no meu dia-a-dia. Os ensinamentos que recolhi nestes últimos anos, baseados no tal paradigma evolucionário, de que aqui tanto falei e em que tanto acredito, certamente me valerão de muito pela vida fora. Não sei se me devo despedir das pessoas ou não, porque afinal trata-se mesmo de uma saída de cena, onde, entretanto, felizmente já outros apareceram, a falar português e a escrever melhor que eu, e isso deixa-me muitíssimo satisfeito. Largar ou partir de algo, principalmente de um intenso trabalho, realizado ao longo de alguns anos, pode parecer para alguns uma tremenda perda, algo de valioso que se deita subitamente para o lixo. Para mim é exactamente ao contrário, e a este respeito tenho sempre na memória a filosofia de Agostinho da Silva, por quem mantenho profundíssima admiração, que interpretava as várias restrições a que um indivíduo se pode sujeitar na vida não como limitações, mas antes como uma libertação de outras coisas. Por exemplo, quando se faz um voto de pobreza, o indivíduo está na realidade a libertar-se do dinheiro e de todos os problemas e dependências que a sua posse implica. E por falar em posses, já que estou a terminar com estas minhas filosofias baratas, o mais importante provérbio-profecia que alguma vez ouvi foi este: “tudo o que possuíres, te possuirá”. É uma frase tão simples, curta e breve, mas ao mesmo tempo profética e catastrófica, não é? No que a mim respeita, está na hora de deixar de possuir este blogue, que como já referi me deu um enorme gosto em fazer, mas já teve o seu tempo. Nada é eterno na vida e, mais cedo ou mais tarde, tudo tem o seu fim. Há que não esquecer que esta é uma área a que não pertenço, em que obviamente não tenho lugar profissionalmente, e em cuja incursão porventura já terei ido longe demais, certamente além do que necessito para o meu dia-a-dia. Em termos práticos, e para não tornar este texto muito mais longo, dado que o prazo do alojamento do website, que não renovarei, termina já neste próximo dia 6 de Agosto, será esta a data de saída do ar. Faltam portanto apenas mais uns 15 dias para a descida do pano, digamos por isso que já estamos em fase de fibrilhação ventricular, aguardando-se agora somente o citado dia para a derradeira assistolia. Não adianta tentarem me dissuadir, não vale mesmo a pena, independentemente do me que possam dizer, é mesmo irreversível. Quando tomo uma decisão suficientemente ponderada, e é este o caso em apreço, sou mais teimoso que um burro. E há que ter isto presente, para não perder a real perspectiva das coisas, era apenas um blogue, um blogue entre tantos outros. Felicidades para os que ficam.

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4 respostas para Canibais e Reis

  1. Vanessa disse:

    Que pena! Muito obrigada desde Brasil por seu trabalho, realmente me ajudou muito. Um abraço!

  2. Flavia Anastácio- Brasil disse:

    Bem fico triste… era visitante diária… Aprendi muito… è realmente uma pena. Para mim, foi a coisa mais lógica que já li sobre nutrição…
    Mas, acho que ele esstá redondamente enganado nesta proposição “Considero o trabalho aqui realizado altamente inútil e inglório, na prática sem qualquer retorno ou reconhecimento…”
    Quanto aos comentários, sempre foi muito dificil postas naquele blog, eu mesma nunca consegui, embora tenha tentado…
    A minha dúvida muito egoista é: E agora? Pra onde foram os acervos? Quem vai continuar…

  3. José Batista disse:

    De facto uma perda importante!
    De perspectivas lúcidas, honestas e altamente fundamentadas parece o nosso mundo cada vez mais carente!
    Após ter citado Agostinho da Silva, nada me atrevo a dizer para o dissuadir da sua decisão… Lamento apenas.

  4. filipa disse:

    Só hoje, após ter estado alguns meses (demasiados, pelos vistos…) sem consultar o blog, notei que dava falha! Não acredito que vou ter de deixar de ler um blog (senão “O” blog) credível e de referência na área da nutrição! Muito lamentável… Fica mais pobre a minha barra de blogs favoritos e fico eu!

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